Filosofia – o retorno do herói

Quando somos crianças a presença de heróis é uma constante em nossas vidas. Nesta fase, nossa imaginação é muito fértil e nos permitimos ser quem queremos. O herói nada mais é que uma representação da grandiosidade do potencial humano. No fundo sabemos que podemos ser muito mais do que aquilo que estamos manifestando no momento.

 

Nosso inconsciente sabendo que possuímos potencialidades latentes, que quando não trabalhadas se atrofiam mantém viva a imagem do herói dentro de nós. Ele envia mensagens de admiração por aqueles que realizaram grandes feitos, querendo nos dizer que também podemos fazer tudo isso, basta que lutemos.

Assim como a criança admira a personagem do cinema que salva a vida de pessoas, o adulto aprecia aqueles que realizaram grandes feitos em alguma área que ele julga importante. Na verdade, o herói vivente é alguém como nós, mas que jamais aceitou a imposição da sociedade que certas coisas não são possíveis. Ele manteve acesa a identificação com aqueles seres “paranormais” que ele tanto gostava quando era jovem e gerou em si a força necessária para a realização de grandes feitos. Aquelas pessoas que aceitam este tipo de imposição, acabam por perder força, voltam à faixa da mediocridade e passam a ser normais como as outras milhões que têm ao lado.

Para Joseph Campbel – um dos maiores estudiosos de mitos e lendas da história – existe dois tipos de mitos: aqueles que realizam proezas físicas, como salvar a vida de uma pessoa, fazer uma grande travessia, etc. E aqueles que atingem um estado superior de consciência e depois se determinam a ensinar outras pessoas uma mensagem. Temos como exemplos do primeiro grupo: Pelé, Lance Armstrong, Paul Tergat e outros grandes atletas. Já no segundo: Zaratustra, de Nietzsche, Jesus, Buda, Maomé, Gandhi, Madre Tereza de Calcutá e outros. Para Campbel seja em um caso como no outro o Herói nos fascina por ter sempre uma atitude de auto-superação e sacrifício. Porém a mensagem mais importante que estes ícones nos passam é que podemos viver uma realidade mais plena do que a que estamos vivendo.

Os iconoclatas, destruidores de mitos, têm seu aspecto positivo dentro da cultura do mito, pois eles nos mostram que também somos capazes de tais proezas. Entretanto, dependendo da forma que tentarem passar sua mensagem poderão enraizar ainda mais as pessoas em sua vida monótona e normal, impedindo que atinjam seus maiores sonhos, pois estarão desencorajando atitudes grandiosas.

O antigo sistema filosófico do Hinduismo possui uma tradição chamada pújá, na qual os adoradores de mitos buscam através do agradecimento a aproximação com os aspectos sutis e perfeitos dos arquétipos. Se esta tradição fosse trazida para os esportes, as artes, a música e o nosso trabalho, com certeza melhoraria nosso desempenho pois despertaria dentro de nós aquilo que nossos heróis viventes já tem desenvolvido. Imagine o quanto um violinista melhoraria sua apresentação se minutos antes dela fizesse um exercício no qual ele busca a máxima identificação com seu ídolo deste instrumento, admirando-o, agradecendo-o e despertando dentro de si algo que o ídolo já tem bem desenvolvido. Sem perder sua individualidade ele faria uma apresentação deslumbrante.

Os heróis estão por aí, às vezes mais próximos do que imaginamos. Não tomemos uma atitude preconceituosa de não admirar as pessoas mais próximas, não vamos perder nada com isso. Façamos daqueles que já conquistaram objetivos que desejamos fonte de inspiração para despertar as mesmas potencialidades dentro de nós.

 

Texto por Daniel De Nardi

www.assimfaloudenardi.com
*Daniel De Nardi é membro do Conselho de Administração da Uni-Yoga e Diretor do CJE-FIESP


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